Home Análise Estatística A história da Análise de Desempenho no futebol – parte 1

A história da Análise de Desempenho no futebol – parte 1

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A análise de desempenho no futebol brasileiro vem ganhando destaque nos clubes e programas de TV, mas se engana quem a enxerga como uma moda passageira. Nessa série de posts vamos mostrar a evolução dessa atividade, desde a sua origem na Inglaterra até os dias de hoje com a proliferação de empresas e softwares especializados em fornecimento de dados e análises das partidas, traçando um comparativo entre o que é praticado aqui no Brasil e em outras partes do mundo.

Os ingleses inventaram o futebol e pode-se dizer também que inventaram a análise de desempenho no futebol. Em 1950, com papel e lápis na arquibancada do estádio, Charles Reep elaborou um relatório de jogo para a partida entre Swindon e Bristol Rovers por meio de um sistema de anotações. Reep seguiu coletando anotações desde então, aperfeiçoando seu sistema: “uma categorização detalhada feita a partir de cada tipo de evento, para os quais foram criadas abreviaturas. Por exemplo, a distância, a direção, a altura e o resultado de cada passe na partida são classificados e registrados, assim como as posições no campo de onde o passe se originou e onde ele acabou”.

Em 1968 publicou, em coautoria com Bernard Benjamin, um artigo intitulado Skill and chance in Association Football (Habilidade e sorte no futebol) com dados de 568 jogos entre 1953 e 1967. Dentre alguns padrões revelados pela análise estatística, um dado teve grande impacto na história de futebol, principalmente o inglês: “de cada nove gols, somente dois resultam de jogadas com mais de três passes”. Esse dado logo se traduziu na conclusão que

Cerca de 80% dos gols são originados de jogadas com 3 passes ou menos.

Depois da publicação desse artigo o trabalho de Charles Reep foi se tornando cada vez mais influente entre treinadores e clubes ingleses. Já os opositores de Reep o acusam de ser um dos maiores responsáveis pelo futebol feio e pragmático praticado pela Inglaterra até os anos 90. Esse podcast publicado no site FiveThirtyEight traz um trecho em que Charles Reep afirma, em uma entrevista a rádio BBC em 1993, que para um time aumentar sua chance de vencer partidas, não deve dar mais que três passes no momento ofensivo. Como Chris Anderson e David Sally observaram no livro Os números do jogo, esse tipo de argumento, ou seja, a eficiência – fazer mais com menos – rapidamente ganhou muitos adeptos, pois é um pensamento dominante em vários setores da sociedade.

Um olhar mais cuidadoso revela a fragilidade de algumas ideias e conclusões de Charles Reep. É sabido que ele era um admirador do estilo de jogo direto, com pontas ocupando posições bastante avançadas e abertas para receber lançamentos. Assim, Anderson e Sally sugerem que Reep buscou [e encontrou] evidências que sustentavam a crença nesse estilo de futebol.

Jonathan Wilson, manifesto opositor das ideias de Reep, expõe argumentos ainda mais fortes no livro A pirâmide invertida. O gráfico abaixo traz dados publicados por Reep e Benjamin no artigo de 1968. No eixo horizontal estão o número de passes certos, portanto 0 significa uma tentativa de passe (passe errado), 1 significa um passe certo antes da perda de posse de bola e assim por diante. As barras mostram a frequência com que esse tipo de movimento ocorreu no conjunto de partidas analisadas.

O gráfico indica que 91,5% dos movimentos, nos jogos estudados por Reep e Benjamin, continham três passes ou menos. Jonathan Wilson observa que se o jogo direto fosse tão eficiente como Reep prega, o percentual de gols resultantes de jogadas com três passes ou menos também deveria ser próximo a 91,5% e não 77,8% como ele mesmo encontrou. Neil Pane vai na mesma linha quando diz que é da natureza do jogo de futebol a constante troca da posse de bola, gerando menor sequência de passes.

Uma menor troca de passes não aumenta a probabilidade de gols. Isso é um sintoma da natureza do jogo, não a causa dos gols.

Jonathan Wilson também critica a ausência de base matemática nas pesquisas de Charles Reep, especialmente ao que ele chamou de “gols em crédito/débito”, derivada de outra estatística que surgiu em Skill and chance in Association Football de que eram necessários, em média, nove chutes para a ocorrência de um gol. Assim, Reep deduziu, se um time tinha dado 90 chutes era esperado que marcasse 10 gols, caso tivesse feito apenas oito gols tinha um crédito de dois, se tivesse feito doze estava em débito. Certa vez ele utilizou dessa teoria para explicar o motivo do Watford ter marcado 0, 5 e 1 gols em três partidas consecutivas, justificando que as “possibilidades randômicas” foram favoráveis na segunda partida e puniram o time na terceira.

A despeito de todos os elogios e críticas, é inegável a relevância do trabalho pioneiro de Charles Reep para o que hoje conhecemos como análise de desempenho no futebol. Ele faleceu em 2002, com 97 anos e há registros de seu trabalho nessa área até 1996. Alguém com relevância em seu âmbito profissional por tantos anos merece todo o respeito.

Na segunda parte desse artigo será abordado os avanços computacionais introduzidos pelo ucraniano Valeriy Lobanovskiy que culminaram nos poderosos softwares que existem atualmente.

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