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A aleatoriedade e o aproveitamento dos artilheiros

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Artilheiros Brasileirão

Toda janela de transferência é a mesma coisa, os artilheiros estão entre os jogadores mais caros e desejados pelos clubes. Entretanto, não é raro ver um grande goleador em uma temporada ir mal na seguinte. Ao ignorar a aleatoriedade no desempenho de um artilheiro, muitos clubes acabam tendo suas expectativas frustradas.

Os gráficos abaixo trazem a quantidade de gols marcados por um jogador nos últimos três Campeonatos Brasileiros. Tente adivinhar que jogador é esse.

Gols no Campeonato Brasileiro

O leitor mais atento vai logo perceber que o jogador A não é real, pois ninguém marcou mais de 25 gols no Brasileirão 2014. Apenas o jogador C é real, são os gols de Fred nas últimas três edições – artilheiro isolado em 2014 e dividindo com Diego Souza e William Pottker ano passado.

A ALEATORIEDADE NOS GOLS

Os gols dos jogadores A e B foram gerados por simulação no computador, a partir dos parâmetros do desempenho real de Fred. Em 2014 ele finalizou 75 vezes, marcando 18 gols, um aproveitamento de 24%. Então estabeleci os parâmetros em 75 chutes, 24% de probabilidade de gol. Isso gerou 28 gols para a simulação A e 19 gols para a simulação B.

É claro que nem todas as finalizações têm a mesma probabilidade de acerto. Existem modelos mais sofisticados que levam em conta a posição de chute e outras variáveis, porém não temos esses dados para o Brasileirão entre 2014 e 2016. Mas com apenas duas variáveis, finalizações e gols, é possível fazer algumas inferências que podem ajudar a evitar armadilhas.

Sabe aquele lance que o atacante faz tudo certinho e a bola vai na trave? Aquele frango, aquela defesa milagrosa, a falha do zagueiro que deixa o atacante livre, a bola cortada em cima da linha? Tudo isso faz parte da aleatoriedade do jogo e os modelos estatísticos lidam com isso. Dizer que em 2016 cada chute de Fred tinha 22% de probabilidade de entrar, implica que tinham 78% de não entrar. Daí as simulações mostram que finalizando 63 vezes ele poderia ter marcado algo entre 20 ou 11 gols, acabou marcando 14.

A IMPORTÂNCIA DE UMA ANÁLISE DE DADOS CORRETA

Um erro comum que as pessoas cometem ao criticar as estatísticas, é levar os números ao pé da letra. Mas a Estatística é o ramo da matemática que lida com as incertezas (variabilidade e probabilidade) dos números. Aqueles com bom conhecimento de Estatística são menos propensos a cometer erros na interpretação dos dados – ênfase no “menos”, o ser humano é naturalmente ruim com probabilidades.

De tudo que foi falado até agora, duas aplicações são imediatas na análise de desempenho no futebol:

  1. Minimizar as chances de uma contratação frustrada;
  2. Auxiliar o treinador na programação de treinos.
UM GOLEADOR CONSISTENTE OU APENAS UMA BOA TEMPORADA?

Fred foi usado como exemplo por ser um goleador incontestável. O aproveitamento dele varia pouco e o que acaba pesando mais na quantidade de gols é o tempo que ele fica afastado por lesões ou suspensões. Mesmo assim, se você quiser contratar Fred pro Brasileirão 2017 esperando 14 gols, saiba que se ele estiver em campo pelo mesmo tempo, se a bola chegar e mantiver o mesmo aproveitamento, a probabilidade de ele marcar menos que 14 gols é de aproximadamente 46%, pelas simulações descritas lá em cima. Pelo histórico dele faz sentido apostar nos 54% de que ele pode superar a marca do ano passado.

Agora tome como exemplo Éderson, artilheiro do Brasileirão 2013 com 21 gols, pelo Atlético Paranaense. Com aproveitamento de 21% nas finalizações, a análise quantitativa indicava 45% de chances de ele não conseguir repetir o feito em 2014. Só que diferente de Fred, uma análise qualitativa mostraria que essa probabilidade poderia ser ainda maior, já que esse era um aproveitamento muito elevado comparado com as temporadas anteriores jogando pelo ABC. Em 2014 ele disputou 12 partidas no Brasileirão, com aproveitamento de 4%, antes de ser emprestado para o Al Wasl.

Jogadores com aproveitamento muito inferior dificilmente vão obter um análise quantitativa favorável por esse método. Por exemplo, Marinho precisou finalizar 111 vezes para marcar 12 gols no Brasileirão 2016, 11% de aproveitamento. Negociado para o Changchun Yatai por 5 milhões de euros, o jogador está a 612 minutos sem balançar a rede na Super League. Não surpreende.

Marinho se apresentando ao Changchun Yatai
Depois de passagens apagadas por Internacional e Cruzeiro, Marinho se destacou no Vitória aos 26 anos, marcando 12 gols no Brasileiro 2016.

Um simples exercício, levando em conta apenas duas variáveis, já ajudam na tentativa de mensurar o risco associado a contratar jogadores que podem estar supervalorizados por uma forcinha da aleatoriedade.

MELHORANDO O APROVEITAMENTO

Essa forma de analisar o desempenho do atacante também pode auxiliar ao treinador a perceber quando está na hora de intensificar os treinamentos em alguns fundamentos.

Muito tem se falado dos gols de Paolo Guerrero nesse início de temporada. Vamos olhar os números sob a ótica do aproveitamento, partindo da premissa que Estadual não é parâmetro. Em 5 jogos pela Libertadores, Guerrero finalizou 33 vezes, isso é mais da metade que ele finalizou em todo o Brasileirão 2016 (59), quando marcou 9 vezes. Isso dá um aproveitamento de 15% no Brasileiro e 6% na Libertadores (2 gols em 33 chutes), que se assemelha ao aproveitamento dele no Brasileiro 2015, quando trocou o Corinthians pelo Flamengo e marcou apenas 3 gols.

Guerrero chora ao desencantar
Guerrero chora ao desencantar (23/08/2015 – FLA 2 x 1 SAO)

Não deveria ser novidade para ninguém que dentre as virtudes de Paolo Guerrero, finalização não é uma delas. Para seguir jogando como única referência no ataque, ou ele bota o pé na forma, ou o time terá que criar melhores chances para ele finalizar.

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