Home Análise Estatística Os goleadores que estão se superando no Brasileirão 2017

Os goleadores que estão se superando no Brasileirão 2017

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A artilharia do Campeonato Brasileiro até a décima rodada é curiosa. O artilheiro, Henrique Dourado com 9 gols, marcou 5 de pênalti. Grandes centroavantes do futebol brasileiro como Fred, Lucas Pratto e Guerrero sequer figuram entre os dez principais marcadores e, para mim, a maior surpresa até agora o atacante Lucca com 7 gols anotados, só 1 de pênalti.

Preparei uma breve análise para tentar determinar se os gols de Lucca nesse início de Campeonato são esperados ou apenas um golpe de sorte.

VALOR ESPERADO DE GOL

Uma métrica muito utilizada pelos principais analistas do futebol mundial se chama expected goal (valor esperado de gol). É um valor que informa a probabilidade de uma determinada finalização resultar em gol. No cálculo os modelos matemáticos levam em conta fatores como a localização do chute, o ângulo entre o local da finalização e o gol, se foi uma cabeçada ou chute, se foi lance de bola parada ou de bola rolando, se foi uma chance clara de gol, etc. Não existe um modelo padrão, cada analista desenvolve o seu e eles vão ficando mais sofisticados à medida que novas variáveis são incorporadas ao modelo.

Infelizmente esses dados não estão disponíveis ao público ou são muito caros de adquirir (quando possível). Para não ficar de braços cruzados, decidi usar a pouca informação que tenho em mãos: a região do campo onde foi realizada a finalização. Três regiões foram utilizadas no modelo: fora da área, na grande área e na pequena área. Pênaltis e gols contras foram removidos.

Assim, temos que desde 2013 cerca de 9% das finalizações resultam em gol no Campeonato Brasileiro. De 100 finalizações na pequena área, em média, 36 vão para o fundo da rede, enquanto para as finalizações na grande área e fora da área, esse índice cai para 11 e 3, respectivamente.

Valor_esperado_de_gol_Brasileiro

APLICANDO O MODELO

A aplicação do modelo consiste simplesmente em levantar o número de finalizações de cada jogador nas três regiões do campo, para em seguida multiplicar pelo percentual de conversão em gols. Por exemplo, Lucas Pratto finalizou 28 vezes na grande área, região na qual 11,1% das finalizações resultaram em gol, portanto o valor esperado de gol para as 28 finalizações do argentino é de 3,11. Como ele marcou 3 gols de dentro da área, está com um desempenho na média.

Escolhemos os 50 jogadores que mais finalizaram até a décima rodada, esses jogadores marcaram 11 gols acima do esperado pelo modelo. Lucca é o que mais se destacou nesse aspecto. Era esperado que ele tivesse marcado até 3 gols, marcou 6 (excluímos os penaltis do modelo, lembra?).

Lucca_finalizacoes_Brasileiro2017Além de Lucca, outros 15 jogadores marcaram pelo menos um gol a mais que o esperado.

Outros 8 jogadores marcaram 1 gol a menos que o esperado.

REGRESSÃO À MÉDIA

A questão é se Lucca consegue manter o desempenho acima do esperado ou vai regredir à média. Bom, a primeira tabela desse post mostra que, em média, 9% das finalizações resultam em gol. Se isso é uma média, existem jogadores com aproveitamentos acima ou abaixo de 9%. O aproveitamento de Lucca está em 24%, muito alto até se comparado aos últimos artilheiros do Brasileirão.

Minha opinião é que ele não conseguirá manter esse índice de acerto tão alto por tanto tempo. Eis alguns motivos:

  1. Ele já tem 27 anos, nunca foi goleador.
  2. Ele converteu todas as finalizações classificadas como chance clara de gol, ainda vai perder algumas.
  3. A cabeçada é um fundamento em que ele vai muito mal.
  4. Ele começou o campeonato como o homem das bolas paradas e cobrador de pênalti, com a chegada de Renato Cajá, Rodrigo e Emerson Sheik pode perder espaço.

Como ano passado os artilheiros do Brasileirão terminaram com 14 gols e ele já tem 7 faltando 28 rodadas, pode até ser que lá em dezembro esteja entre os principais artilheiros da competição. Repetir o feito em outra temporada muito improvável.

Portanto na combinação de habilidade e sorte, acho que nesse momento o fator sorte está muito preponderante no desempenho do jogador.

LIMITAÇÕES DO MODELO

Mais uma vez é bom ressaltar a limitação desse modelo por falta de dados mais detalhados. É claro que assumir a mesma probabilidade para todas as finalizações dentro da área, por exemplo, é uma generalização. Na realidade aquela finalização cara a cara com o goleiro tem valor esperado de gol maior do que um chute dentro da área cercado pelos adversários.

No entanto para o propósito da análise demonstrada aqui, o modelo, ainda que rudimentar, cumpriu o objetivo. Assim como no artigo sobre a aleatoriedade dos artilheiros, a ideia é mostrar que é possível extrair um pouco mais de conhecimento mesmo com poucos dados à disposição. Ao avaliar os jogadores um pouco além da classificação da artilharia, se entende melhor o seu desempenho. Esse tipo de análise pode ajudar num programa de treinamentos, numa organização tática que possibilite extrair o melhor do jogador ou em tomada de decisão para contratação.

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