Home Opinião Muricy Ramalho critica análise de desempenho no futebol

Muricy Ramalho critica análise de desempenho no futebol

340
0
Muricy Ramalho no programa

No programa “Bem, Amigos!”, exibido no dia 01/05, pelo canal SporTV, Muricy Ramalho fez coro ao convidado Joel Santana concordando que o futebol brasileiro está se afastando da sua essência (assinantes do SporTV podem assistir ao programa aqui).

“Eu acho que nós estamos robotizando nossos jogadores. Eles têm que fazer aquele movimento que o setor de inteligência fala, que o fisiologista fala. Eu acho importante isso aí, porque depois do jogo o treinador tem todas as informações, ou seja, qual a quilometragem do cara, qual a intensidade do cara, isso aí é ótimo. Essas coisas são boas. Mas só que estão exagerando um pouco, no que diz respeito a opinar sobre o trabalho do treinador. Tem exemplo toda hora de o treinador ouvir muito essas pessoas do setor de inteligência, as vezes confunde o treinador e ele tem que abrir mão de um esquema tático por uma informação dessa, para dentro do clube ele não ficar falado como um cara que não gosta de tecnologia. Não é isso. Hoje dá pro cara ver, eu vou ver jogos, eu ia enfrentar o Joel, ia ver o time do Joel jogar, meu auxiliar ia também. Eu tinha que ter os números, mas não só isso.

Tem muita gente que não é do futebol, que está no futebol e atrapalha um pouco. Eu acho que atrapalha, porque eu tenho visto jogos que as vezes o treinador muda de uma hora para outra sem nunca ter treinado. Por informação de um cara que falou pra ele “vai acontecer isso porque um time tem jogada alta”, ele muda completamente o esquema tático só para satisfazer o cara do setor de inteligência.

Os treinadores jovens têm que ter um pouco de calma com esse setor de inteligência. É importante? Os números são importantes, eu também concordo, mas a gente tem que voltar…porque a gente não faz mais jogadores, nós temos jogadores tudo parecidos. A verdade é essa. Temos bons jogadores, mas craques não temos mais, poucos. Porque já começa em baixo, começam a falar de tática com garoto de 14, 15 anos, já não deixam driblar mais…

É importante a modernização, é importante os números, é importante tecnologia, mas é importante também valorizar o futebol, falar de futebol.”

Assim que Muricy terminou sua fala, o jornalista Paulo César Vasconcellos emendou:

“No jogo Peñarol x Palmeiras tivemos um episódio em que Eduardo Baptista tomou uma decisão equivocada.” Ele se referia a ter iniciado a partida com três zagueiros. “O resultado só aconteceu porque ele levou 45 minutos para corrigir um erro. E esse erro, muito provavelmente, deve ter sido gerado por informações que chegaram a ele.”

ENTÃO OS JOVENS TREINADORES SÃO SUBMISSOS?

Uma das coisas mais sabidas até por quem não acompanha futebol, é que treinador não aceita intromissão nem do presidente do clube no seu trabalho. Enquanto na maioria das profissões impera o “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, no futebol o cara que contrata e paga não pode opinar ou expressar seu descontentamento com as decisões do técnico.

Mas pelo o que Muricy falou, tem técnico deixando o setor de inteligência se intrometer. E se isso está acontecendo, o alvo da crítica deveriam ser aqueles que estão se deixando levar por essa gente de fora do futebol.

DELIMITANDO O ESCOPO DA ANÁLISE DE DESEMPENHO

Apesar dos avanços obtidos, no que diz respeito a sua adoção por parte dos clubes, a análise de desempenho no futebol ainda está engatinhando. Essa fronteira foi rompida depois de a análise de dados ter se mostrado útil em diversos setores e outras modalidades esportivas.

Em praticamente todos os casos, a análise de dados não é uma atividade fim, é uma atividade de suporte à tomada de decisões. Ou seja, ela vem somar junto a aspectos como experiência, intuição, conduta profissional, etc. É dever do tomador de decisão escolher os elementos que vão pesar na sua escolha final.

Sendo o treinador autônomo e soberano nas decisões do time até em relação ao presidente, não deveria se deixar influenciar dessa forma por um setor de inteligência. Ele está ali para ajudar, não para decidir pelo treinador. Se o adversário tem “um cara da bola alta”, é obrigação do analista avisar, o que o técnico vai fazer com a informação é problema do técnico. Até parece que antes dos setores de inteligência os treinadores não mudavam formações de uma hora para outra, por exemplo. E quando o técnico insiste no erro, também é culpa do setor de inteligência?

O MOMENTO É DE SOMAR FORÇAS, NÃO REGREDIR 

A discrepância que o Brasil demonstrou frente a Alemanha na Copa não foi devido a escassez de talento, tampouco o bom momento vivido agora é por abundância do mesmo. Há aspectos em toda a forma de trabalho, refletindo positivamente em campo.

O futebol brasileiro passa por um momento de ruptura, é natural esse comportamento reativo por aqueles que estão à margem do processo de renovação. Depois da aula de futebol que o Barcelona aplicou no Santos de Muricy na final do Mundial, ele esteve na Espanha para conhecer um pouco do clube.

Como ficou apenas 12 dias lá, Muricy não deve ter tido tempo de ver como Luis Enrique trabalha com seus analistas. Logo no início da sua fala Muricy cita como um benefício do setor de inteligência saber quanto o jogador correu em uma partida. Para se ter uma noção de como isso é pouco, no ótimo livro Guardiola Confidencial, o autor revela que Carles Planchart (analista que trabalha com Guardiola há 10 anos), ao final de cada partida, possui registros de todos os lances de cada jogador indicando se as decisões tomadas pelo atleta naquelas situações foram as mais adequadas ou não. A partida fica disponível para Guardiola, que pode rever a partida toda ou escolher as ações que os analistas selecionaram, por jogador ou por tipo de lance, com as anotações. Guardiola também faz suas anotações e as incorpora ao relatório de jogo. Na análise pré-jogo, a equipe de scouting analisa cerca de cinco jogos do adversário e prepara um relatório com conceitos de jogo e jogadas. Pep também assiste aos jogos e faz sua própria análise. Cabe somente a ele decidir quais aspectos trabalhará com a equipe.

JOGADOR PRECISA DRIBLAR SIM, MAS TAMBÉM COMPREENDER SEU PAPEL NO TIME

Muricy voltou de seu tour catalão exaltando a base do Barcelona, como eles eram profissionais, como estão anos à nossa frente e tal. Houve quem comprou essa ideia da nova mentalidade de Muricy. Mas aí ele fala que jogador de 15 anos tem que driblar ao invés de aprender tática. Na base do Barcelona os garotos só ficam driblando? Onde entra aquele papo de modelo de jogo integrado da base ao profissional?

O jogo competitivo em alto nível exigirá mais que habilidade e técnica, por mais importante que isso seja. A conscientização de que precisamos evoluir já é página virada, o debate deve ser em torno de como dar esses passos da maneira mais harmoniosa e rápida possível. O vídeo a seguir mostra o envolvimento da seleção alemã durante a Copa do Mundo 2014, tire suas conclusões.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here